sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Introdução à história da dança - como surgiu o Ballet Clássico

Esta é a reprodução de uma apostila criada pela professora Renata Sanches a fim de acompanhar as aulas teóricas. Trata-se de um resumo simples que não substitui uma leitura aprofundada da História da Dança. Para saber mais, há uma bibliografia no final.

Nesta postagem vou me dedicar ao tema "Como surgiu o que conhecemos hoje por ballet clássico".


No Ocidente, a dança é uma arte que sempre esteve presente, mas que também sofreu restrições. Pensemos um pouco no período conhecido como Idade Média: a Igreja dominava os reinos e seus povos e seus dogmas estavam enraizados nas pessoas, que temiam quais consequências de seus pecados antes e após suas  mortes. O corpo era considerado a parte demoníaca do ser humano pela Igreja Católica. Havia uma separação entre corpo/ alma, mal/ bem que persistiu durante séculos. Então a dança, uma arte intimamente ligada ao corpo, demorou mais a se desenvolver do que as outras artes como o teatro, a música, a literatura, as artes plásticas.
No início da Idade Média existiam danças rurais e danças pagãs (praticadas pelo povo). Existiam também os dramas litúrgicos, uma espécie de encenação teatral das partes da missa. Aos poucos, alguns movimentos das danças populares foram sendo incorporadas nos dramas litúrgicos realizados pelo coro da missa. Com isso houve o desenvolvimento de corporações da comunidade responsáveis por fazer o figurino, criar os passos, treinar o coro, já sem ajuda do padre. Esse "coro" então saiu da igreja para encenar na porta da mesma (onde havia mais espaço). Logo houve a necessidade da criação dos palcos (palco de justaposição e palco móvel). Neles eram encenados os dramas semilitúrgicos (séc XII ao XV) e o drama da moralidade (séc XV... retomada da temática da Antiguidade Grega). A dança (como espetáculo), o movimento, faziam parte do drama. Existiam paralelamente as danças sociais, feitas pelo povo e pela nobreza para diversão. Essas danças não puderam ser abolidas pela igreja, então foram incorporadas e restringidas.
Na Itália, por volta de 1500, nos intervalos desses dramas litúrgicos haviam apresentações diversas, performances de artistas. Esses intervalos, chamados de "intermezzo" fizeram tanto sucesso que o povo ia ao drama litúrgico somente para assistí-los. A dança então foi vista pela primeira vez como arte, com dançarinos em cima do palco e a platéia assistindo. Surgem na Itália os primeiros tratados sobre dança, os primeiros mestres e os primeiros instrutores. Nessa época surgiu também o que chamamos hoje de "palco italiano".
A corte mais rica era a corte francesa e esta começou a levar os artistas italianos e suas idéias para a França. A Itália tinha as seguintes danças: brando, galliard, coranto, balli, quadrilha, contradança, entre outras. Os franceses então resolveram chamar estas todas de "ballet".
Quem mais contribuiu com a dança na França dessa época foi a rainha Catherine de Médici. Ela era muito poderosa e amava a dança. Surgiu então o "Ballet de Cour", ou seja, o Balé da Corte. O primeiro espetáculo foi o "Ballet Comique de la Reine" que começava às 10 da noite e terminava às 3 da manhã. Foi coreografado pelo italiano Baltasarini, conhecido na França por Beaujoyeulx. Esse espetáculo reunia dança, música e poesia sobre um tema de tragédia clássica. Com muito fausto, carros alegóricos e fantasias o balé italiano ganhou maior unidade dramática e os enredos medievais foram substituídos pelos da mitologia greco-romana. Mas tanto no balé abstrato quanto no balé dança dramática a forma criou sua linguagem própria, montada sobre uma série de posições e movimentos convencionais, de ensino rígido e aprendizado obrigatório. Muitos desses movimentos, que são como que o alfabeto ideográfico do balé, são conhecidos no mundo inteiro pelos nomes franceses: "pointe" = dançar nas pontas dos pés, "pas de deux" = dança a dois, "entrechat" = salto em que os pés cruzam no ar mais de uma vez rapidamente.
A estrutura dos Balés de Corte consistia em 2 partes distintas:
1- "Entrees" - parte profissional com um tema mais ou menos desenvolvido, coreografia complexa. Era realizada por profissionais e por membros da corte (que também ensaiavam).
2- "Grand Ballet" - parte social, dançada por todos os presentes, sem refinação coreográfica. Era uma grande improvisação com a participação do público.
Haviam 3 tamanhos de ballet: o "Ballet Royal", com 30 "entrées", o "Ballet Fino", com 20 "entrées" e o "Ballet pequeno", com 10 "entrées".
O Balé teve seu apogeu com o Rei Luís XIV. Este soube atrair os maiores talentos do reino para seus espetáculos. Pécourt e Beauchamp encarregavam-se das danças, enquanto Lully, violinista e bailarino, compunha a maior parte das músicas. Luís XIV fundou em 1661 a academia Real de Dança transformada em academia Real de Música e Dança (1669). O balé passou então, definitivamente da corte para o teatro. Consistia ainda em uma série de danças executadas ao som do canto e música com argumento mitológico. Os artistas eram sempre do sexo masculino, inclusive para papéis femininos. Em geral usavam máscaras e trajes que embaraçavam os movimentos e dificultavam a respiração.
A academia realmente importante foi a "L'Académie d'Ópera" (Ópera de Paris) criada por Jean Baptist Lully. Em 1681 Lully incluía pela primeira vez mulheres como bailarinas em sua obra "Triunfo de Amor". Não era comum mulher dançar pois era considerado coisa própria de homem. Os passos nessa época eram todos "a terre", isto é, baixos e sem saltos. Foi o grande bailarino Ballon que incorporou os grandes saltos à técnica rudimentar. Coube a Charles Louis Beuchamp elaborar as 5 posições dos pés, que até hoje continuam básicas, enquanto Raoul Feuillet realizou a primeira tentativa de notação da dança, com sua "coreografia" ou "arte escrever a dança".
O Rei Sol como era chamado Luís XIV era o solista- protagonista de todas as encenações lembrando que outros membros da corte participavam do Ballet junto com os profissionais. A sua morte tirou de cena os membros da corte. Com a morte de Luís XIV o balé tornou-se profissional e a Ópera de Paris converteu-se no centro mundial da dança durante todo o séc. XVIII.
Nesse momento surgiu a figura da primeira bailarina; elas tiveram papel muito importante para o desenvolvimento da dança, criando passos, mudando figurinos, melhorando a performance etc. Porém, nenhuma delas chegou ao estatus de "coreógrafa" ou "mestre de ballet". Marie Camargo criou o "entrechat à quatre", o "jeté" e o "Pas de basque", encurtou os vestidos até acima dos tornozelos, escandalizando as platéias, e calçou sapatos sem saltos!!! Marie Sallé aboliu o penteado alto e adornado, o corpinho justo e a saia balão: soltou os cabelos e vestiu uma espécie de túnica de musseline branca.
Uma figura importantíssima da dança do séc. XVIII foi Jean-Georges Noverre, reformador cuja obra principal (além de inúmeros bailados) foi "Lettres sur la danse ballets"(http://www.lubranomusic.com/cgi-bin/lubrano/11500), uma exposição de leis e teorias do balé, até hoje considerada a melhor do gênero.
Noverre foi o primeiro a argumentar que o balé não era um "mere divertissiment", mas uma obra nobre, destinada à expressão e ao desenvolvimento de um tema. Assim, foi o verdadeiro criador do "Ballet D'Action", ou balé dramático, onde toda a história se conta por meio de gestos e não pelo canto ou declamação. Noverre reclamava maior expressão integrada na própria dança, maior simplicidade e comodidade nos trajes, mais vastos conhecimentos para os "maitres-de-ballet" (especialmente de anatomia), a necessidade de um tema de fundo para cada balé e não meras danças esparsas e mecânicas. A esse tempo salientaram-se os grande bailarinos Gaetano Vestris e Augusto Vestris, também criadores de novos passos.
No final o séc. XVIII e início do séc. XIV surge o movimento "Romantismo" nas artes. Caracterizou-se pelo exagero, magia, emoção, imaginação, paixão, individualismo, originalidade. No teatro foi criado o "Melodrama". A peça "Os três mosqueteiros" é dessa época. Nesse momento ocorria a "Revolução Francesa" na política. A maioria dos ballets de repertório que conhecemos e encenamos hoje foram criados durante o Romantismo. Então, aquilo que chamamos de "ballet clássico" é, na verdade, um "ballet romântico", pois não é da época do Classicismo. Porém, o termo "clássico" é usado no sentido de uma coisa que tem valor por resistir ao tempo, algo "consagrado" pelo tempo.
Jules Perrot (1810- 1892) criou "Giselle" e "La Esmeralda"
Arthur Saint Léon (1821-1871) criou "La Fille de Mabre" e "Le Violin du diable" e "Coppélia"
Marius Petipá (1818-1910) criou "A Bela Adormecida", "Dom Quixote", "O Espelho Mágico".
Por volta de 1850, quando surgiu o Realismo e posteriormente o Naturalismo, o balé insistiu em manter o Romantismo. Com isso ele decaiu e é por isso dançamos até hoje coreografias românticas de repertório, pois estas representam o auge do balé.
Veja a seguir no you tube uma cena e documentário de 1972 com Yvette Chauvire Rudolf Nureyev Cyril Atanassoff in Giselle Scenes from acts 1 & 2 Paris Opera Ballet

http://www.youtube.com/watch?v=QQFujJbuppY



Bibliografia para História da Dança
Garaudy, Roger. Dançar a vida. Ed. Nova Fronteira. Compre: http://www.livrariaresposta.com.br/v2/produto.php?id=27574
Bourcier, Paul. História da Dança no Ocidente. Ed. Martins Fontes, 1987. Compre: http://compare.buscape.com.br/historia-da-danca-no-ocidente-bourcier-paul-8533614756.html

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